O protagonismo da mulher no mundo corporativo tem crescido não só na liderança de equipes e projetos ou no segmento autônomo, mas também ganhou força na organização e gestão de eventos  para diferentes públicos e campos de atuação. O empreendedorismo feminino traz, cada vez mais, boas surpresas para o mercado e para o consumidor.

Além de gerar oportunidades de emprego e negócio, as mulheres assumem o compromisso com o empoderamento trazendo ideias criativas, atraentes e que chamam a atenção, principalmente, de possíveis patrocinadores e parceiros.

Para reafirmar essa nova dinâmica feminina que movimenta a economia, entrevistamos três mulheres incríveis do mundo da organização de eventos, que são criadoras e organizam eventos de destaque em São Paulo: Flávia Durante, que comanda a Feira Pop Plus, Camila Mazzini, do grupo Garotas no Poder, e Claudia Kievel que, junto com a sócia  Gladys Tchoport, organiza a Feira Jardim Secreto.

Elas contam quais foram os primeiros passos da trajetória, a estabilidade profissional e, finalmente, os desafios que enfrentam hoje. São verdadeiras fontes de inspiração para outras mulheres que pretendem viver do seu próprio negócio.

Mulheres que fazem a diferença na organização e gestão de eventos

Flávia Durante: criadora e organizadora da “Pop Plus”, feira de moda plus size

“A ideia de feira nasceu de uma necessidade minha ao perceber que não encontrava roupas do estilo que me agradava. Nessa época comecei a revender biquínis em bazares com amigas que já trabalhavam com moda plus size e, aos poucos, fui juntando algumas marcas para montar a feira, mas tudo aconteceu de maneira bem despretensiosa”.

A empresária conta que a feira pretende expandir a modelagem de roupas para números maiores e conseguir atender cada vez mais pessoas: “A Feira Pop Plus tem foco em roupas acima do 44/46, que no varejo já é considerado plus size. Já temos marcas que trabalham com tamanhos 60 a 70, mas nosso forte ainda são 54/56. A feira começou com uma pegada alternativa, mas hoje conseguimos agregar mais estilos de roupas: alternativa, fashion, clássica e básica. Todo mundo pode encontrar peças bacanas”.

A mudança de profissão não foi por acaso, já que Flávia sempre esteve envolvida na organização de eventos. A feira existe há seis anos, mas só em 2016 passou a enxergar como um negócio: “Fui jornalista por 20 anos, mas já na época da faculdade organizava shows de bandas, baladas e festas. Mesmo estando nesse mundo de eventos desde muito cedo, encarava apenas como uma renda extra. Hoje o projeto Pop Plus é a minha profissão. Fico muito feliz em ver mulheres movimentando a economia com projetos criativos”.

Ainda há alguns desafios que Flávia enfrenta no ramo plus size, principalmente com patrocínio, pois como a feira tem um papel importante de ativismo e incentivo ao body positive das pessoas gordas, ela acredita que muitos se recusam a apoiar o projeto. “Nem toda marca quer estar associada a isso. Em seis anos de evento tivemos apenas um patrocínio, mas ainda estamos conseguindo sustentar o evento. Outra questão é que as pessoas acham fácil organizar eventos, mas não sabem como é por trás das câmeras, isto, é o processo de planejar uma estrutura necessária para realizá-los”.

Perguntamos à Flávia que conselho ela dá para mulheres que sentem o desejo de empreender: “Não tenha medo de pedir ajuda e procure se aliar às pessoas certas. No meu processo de transição de carreira procurei um consultor de empreendedorismo para me aconselhar. Quando o Pop Plus começou a dar certo me juntei a sócios para ajudar com a organização e gestão de eventos. Sempre fui de fazer primeiro e no caminho me aperfeiçoando”.

“Para mim todas as feiras são um desafio, ainda mais no meu ramo que é ligado diretamente à auto-estima e ao ativismo das mulheres gordas na moda. Enquanto alguma mulher sair insatisfeita da feira porque não encontrou peças do seu tamanho, sei que meu trabalho não terminou”, completa.

Camila Mazzini, que trabalha na organização do coletivo “Garotas no Poder

Na maioria das vezes as ideias para organização e gestão de eventos surgem a partir de cenas cotidianas – e foi exatamente o caso de Camila, que estava um dia em casa quando teve problemas com a pia do banheiro. “Foi nesse momento que pensei: será que não tem uma mulher que faça isso? Dessa situação nasceu um grupo no Facebook para trocar informações sobre mulheres que prestassem serviços. Mas sempre foi algo entre amigos, nunca imaginei que pudesse virar um projeto”.

Há três anos, o grupo criado por Camila reúne cerca de 45 mil mulheres que procuram e oferecem ajuda: “Quando abri a página para mensagens, comecei a perceber que havia uma demanda muito grande de mulheres à procura de trabalho em todas as áreas profissionais”, conta.  

Ao aumentar a rede, Camila percebeu que a interação através do Facebook não era suficiente e decidiu mergulhar na organização e gestão de eventos para abordar questões importantes ligados ao feminismo e ao mercado de trabalho para mulheres: “Achei que ter um contato físico com essas mulheres era importante. Em breve faremos mais eventos com profissionais para aconselhamento em todos os setores”.

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Hoje, o Garotas no Poder tem uma festa fixa no bar Mandíbula, região central de São Paulo, que acontece uma vez por mês, sempre às quartas-feiras. A festa é comandada exclusivamente por mulheres, como DJs, expositoras e bandas independentes. A intenção do evento é sempre chamar atenção para o protagonismo feminino.

A gaúcha acredita que eventos organizados por mulheres tendem a dar mais certo, até por conta do preconceito no mercado de trabalho. “Sofremos tanto com a desigualdade de gênero que precisamos nos ajudar, não só pela causa, mas porque se não fizermos isso, ninguém fará pela gente”.

No comando do “Garotas”, Camila conta que para ter sucesso não adianta só o talento e  vontade de fazer algo: “Você precisa ter alguma noção de negócio, planejamento, pesquisar sobre o mercado, criar diferenciais, pensar os prós e contras, não ter medo e, se possível, ter sócios com os mesmos ideais”.

Claudia Kievel, sócia da Feira Jardim Secreto, que incentiva a venda de produtos artesanais

 Ao criarem a feira, Claudia e Gladys tinham o desejo de dar destaque a novos produtores que estão fazendo um trabalho artesanal inspirador e de qualidade. “A ideia de fazer o evento surgiu como uma busca por formas diferentes de viver em São Paulo e também para que as pessoas pudessem ter uma experiência de conexão, convívio e troca de experiências. Começamos com 15 expositores e algumas oficinas gratuitas, mas a feira ganhou força e está muito maior”, conta Claudia.

Uma das premissas do evento é dar protagonismo à figura feminina, por isso a maioria dos expositores da feira é mulher. Por conta disso, a empresária tende a prestar mais atenção em projetos feitos por mulheres: “Fazemos isso, porque a sociedade ainda não dá a importância devida. Hoje, felizmente, o mercado foi obrigado a olhar para o trabalho das mulheres, assim como agora está sendo obrigado a olhar para o trabalho de negros e negras”.

Quanto ao preconceito às mulheres no mundo da organização e gestão de eventos, Claudia sente que não é algo que sumiu, mas está diminuindo. “Hoje os homens pensam muito mais antes de dizer algo relacionado a convivência com mulheres que têm algum tipo de poder. Acredito que o preconceito ainda continua, só que mais silenciado, o que já é uma vitória, mas ainda há um longo caminho para percorrermos.”

Como Flávia e Camila, Claudia acredita que para que o empreendimento dê certo, é preciso em primeiro lugar, planejamento e amor pelo que faz: “Meu conselho é sempre buscar algo que te alimenta, fortalece e inspira. Trabalhar com algo que a gente gosta nos dá muito mais energia para superar os desafios, que muitas vezes podem fazer você cansar ou querer desistir, mas o importante é sempre insistir!”.

Claudia e a sócia também mantêm os trabalhos em uma loja fixa, a Casa Jardim Secreto, situado no bairro do Bixiga. O local funciona como uma agregador de marcas onde você encontra algumas peças dos expositores participantes da feira, mas em menor quantidade. É uma oportunidade para se ter um gostinho do que rola nos eventos.